
Jobi, uma questão de afinidade
Quando o nosso querido João Fontes me convidou
para dar este depoimento, fiquei na dúvida se o meu parco texto seria capaz
de tanto; mas o prazer de falar sobre o Jobi foi mais alto e deixou a minha
timidez de lado.
Desde 1961, quando a família Rocha assumiu
o então simples pé-sujo, a trajetória do Jobi se deu sempre em
ritmo ascendente, culminando com a
unanimidade dos dias de hoje. Sem
tirar os méritos do patriarca Adelino e do caçula Manuel, os grandes responsáveis
pela consagração do Jobi, num local
ímpar da noite carioca, foram o filho mais velho Narciso e o cearense Paiva,
duo que, ao longo dos últimos 22 anos, consolidou com competência e profissionalismo
o prestígio do bar.
Hoje Narciso, por força das circunstâncias,
não está mais na noite, mas é ele quem está dando, durante o dia, a grande
versatilidade do cardápio do Jobi, onde as tradicionais rabadas, dobradinhas
e cozidos têm agora a companhia de haddocks, salmões, leitões, javalis e de
um excepcional bacalhau à lagareira.
Entretanto, é à noite que o Jobi se transforma
naquele point de alegria, etilismo e confraternização onde Edilson, Chiquinho,
Jardel, João Batista, Juninho, Izidio e Zé, comandados pela batuta do maestro
Paiva, dão ao bar o tom feérico e descontraído, característico dos grandes
redutos da boemia.
Paiva, este grande companheiro, solidário,
correto e, sobretudo botafoguense, para
mim, o melhor garçom com quem já convivi,
é o grande nome do Jobi. Conhecido em todo o Rio, Paivinha está nos
devendo não mais uma outra entrevista, mas um livro com suas memórias, que
não são poucas.
Os preços altos do Jobi, sem
dúvida o botequim mais caro do Rio, não desestimulam sua fiel, eclética e
sempre crescente clientela que tem, como contrapartida, a certeza do chope
gelado e sempre bem tirado, cachaças de Salinas, bons vinhos portugueses,
bolinhos de bacalhau e risoles de camarão com catupiri feitos na hora, o honesto
caldo verde e o melhor pernil da Zona Sul (quando preparado no dia!), além
do mais importante: de ver mantida acesa a chama da tradição notívaga do Leblon,
tão bem representada pelos saudosos Luna, Ra e Diagonal antigo.
Hoje, nos tempos da internet, quando são
raros os locais que fecham as suas portas após
as duas da madrugada, ver o Jobi, mesmo quando o clima não ajuda, atender
até o último boêmio (ou insone, por que não?) nos dá uma esperança de que
nem tudo está perdido, que os papos de bar (sexo, política e futebol, não
necessariamente nessa ordem), a solidariedade dos iguais, a paciência com
os malas e as amizades forjadas junto
ao copo de bebida continuarão a coexistir com a rotina daqueles que preferem
(ou são obrigados) viver o dia.
Que me perdoem o Lamas, o Nogueira, o Capela
e o Cervantes, mas o Jobi é decididamente o último bastião da boemia carioca.
Helio Delgado
Engenheiro, livre-pensador
e boêmio por natureza
heliodelgado@uol.com.br
